Sábado, Dezembro 16, 2017

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Eco-sistema da Ilha do Mel

 

São reconhecidas na Ilha do Mel as seguintes unidades vegetacionais conforme o sistema de classificação da vegetação proposto por VELOSO et al. (1991).

- Sistemas Edáficos de Primeira Ocupação ou Áreas de Formações Pioneiras

      Com influência marinha: praias, dunas, "ticket" arbustivo pós-praia, "scrub" lenhoso da planície costeira, florestas arenosas ou secas, florestas paludosas ou brejosas e vegetação rupícola dos costões.

      Com influência flúvio-marinha: marismas e manguezais; aqui são incluídas áreas de transição destes sistemas com as zonas de influência exclusivamente marinha.

      Com influência fluvial: brejos herbáceos e\ou arbóreos ao longo de pequenos rios e banhados, incluindo os "caxetais".

- Floresta Ombrófila Densa Atlântica

      Das terras baixas ou da planície litorânea

      Submontana

- Vegetação secundária com influência antrópica

            Estágios inicial, intermediário e avançado; são incluídas aqui as espécies cultivadas na Ilha, independentemente da finalidade do cultivo.

As áreas de Formações Pioneiras com Influência Marinha, com suas diferentes fisionomias, e a Floresta Ombrófila Densa Atlântica, tanto das encostas como da planície costeira,  são as unidades mais expressivas em termos de área ocupada na Ilha.

Formações Pioneiras com Influência Marinha

Encontram-se sob esta denominação as comunidades vegetais que recebem influência direta do oceano, ocorrendo principalmente em substrato arenoso de deposição marinha, ou então em pontais rochosos dos morros da Ilha. São incluídas neste tipo as comunidades ocorrentes nas praias, dunas, e sobre boa parte da planície costeira da Ilha, notadamente nos setores com cordões litorâneos bem definidos. Na verdade, a vegetação mostra-se bastante heterogênea, formando uma espécie de "mosaico" de diferentes fisionomias, indicando em alguns casos o forte caráter sucessional da vegetação. Estes tipos vegetacionais são comumente tratados na literatura como "restinga" ou "vegetação de  restinga".

A vegetação de praia e dunas esta melhor representada na praia do Farol, onde ocorre a formação recente de um grande banco de areia, e também nas praias de Fora, Grande, do Miguel, das Encantadas e na Ponta do Bicho. As praias e dunas têm vegetação de fisionomia e composição típicas, com espécies adaptadas a sobrevivência em um ambiente com várias adversidades, como mobilidade do substrato, alto teor salino, rápida drenagem, deficiência em matéria orgânica e aquecimento das camadas superficiais do substrato pela insolação direta. Espécies freqüentes nestas regiões são Blutaparon portulacoides (Amaranthaceae), Ipomoea pescaprae e Ipomoea stolonifera (Convolvulaceae), Paspalum vaginatum, Sporobolus virginicus, Stenotaphrum secundatum e Spartina ciliata (Poaceae), Hydrocotile bonariensis (Apiaceae) e Cyperus obtusatus, C. polystachyos e C. ligulares (Cyperaceae).

Nas dunas mais antigas, já densamente colonizadas pela vegetação, é comum a ocorrência de arbustos baixos e ramificados, além de várias espécies de bromeliáceas, algumas orquídeas e pteridófitas terrestres, constituindo uma vegetação arbustiva baixa e densa. Dentre as espécies arbustivas destacam-se Dalbergia ecastophylla e Sophora tomentosa (Fabaceae), Rapanea parvifolia (Myrsinaceae), Guapira opposita (Nyctaginaceae), Psidium cattleianum e Eugenia sulcata (Myrtaceae), entre outras. Dentre as bromeliáceas as espécies mais freqüentes são Dyckia encholirioides, Aechmea nudicaulis, Aechmea organensis, Ananas bracteatus e Bromelia antiacantha, e entre as orquidáceas destacam-se Cyrtopodium polyphylum e Epidendrum fulgens. As pteridófitas comuns nestas áreas são Blechnum serrulatum (Blechnaceae) e Rumohra adiantiforme (Dryopteridaceae). Nestes arbustos baixos próximos a praia é visível a influência dos ventos predominantes no formato das copas.

Esta faixa de vegetação que ocorre nas praias e dunas frontais tem recebido várias denominações na literatura, dentre as quais "vegetação praieira" (FIGUEIREDO, 1954), "subformação psamófita, fácies holo-psamófita" (HERTEL, 1959), "comunidade halófila praieira" (RIZZINI, 1963), "formação pioneira das dunas" (NOFFS & BATISTA-NOFFS, 1982; BARROS et al., 1991), "vegetação da praia" (MAACK, 1981), entre outros.

Passada esta faixa de vegetação inicialmente herbácea e arbustiva, a vegetação adquire fisionomia muito característica, com arbustos bastante ramificados, de ramos tortuosos, formando agrupamentos bastante densos de 2 a 5m de altura, podendo haver o desenvolvimento de plantas epífitas e herbáceas terrestres, assim como de muitas trepadeiras lenhosas (lianas). A denominação dada a este tipo vegetacional é muito variada, sendo usado comumente o termo "scrub" ou escrube para designá-lo, indicando o caráter arbustivo da vegetação, entremeado por espécies herbáceas, especialmente bromeliáceas. Esta é a fisionomia mais típica das porções mais próximas ao mar da planície costeira, não só na Ilha como também em boa parte do litoral paranaense, sendo comumente chamada de "restinga" propriamente dita (STELLFELD, 1949; FIGUEIREDO, 1954), "floresta esclerófila litorânea" (RIZZINI, 1963), "fácies hetero-psamófita da sub-formação  psamófita ou capeva" (HERTEL, 1959), "nhundu ou jundu" (LOEFGREN, 1896; ROMARIZ, 1972; MAACK, 1981).

Dentre as espécies arbustivas ocorrentes nesta fisionomia de vegetação destacam-se as pertencentes às famílias Myrtaceae, Myrsinaceae, Aquifoliaceae, Clusiaceae, Anacardiaceae, Lauraceae, Erythroxylaceae e Nyctaginaceae.

Dentre as espécies herbáceas terrestres ocorrentes à sombra dos arbustos ou nos locais mais abertos destacam-se as mesmas espécies de pteridófitas ocorrentes nas dunas.

Normalmente, após esta faixa de vegetação arbustiva fechada ocorrem áreas de fisionomia também arbustiva baixa, intercaladas por espaços abertos, cujas espécies pertencem as famílias já citadas anteriormente.

A tendência deste tipo vegetacional, a medida em que afasta-se do mar é tornar-se cada vez mais desenvolvido, tanto estrutural como floristicamente, até chegar o ponto em que adquire aspecto de uma floresta baixa, com três estratos mais ou menos definidos, um arbóreo, de até 10m de altura, um outro arbustivo e um herbáceo, comumente designado na literatura como "floresta arenosa", "seca" ou "da restinga", que freqüentemente aparece intercalada com outro tipo florestal, mais desenvolvido, cujas árvores do estrato superior são maiores (até 20m de altura), ocorrendo ainda  um segundo estrato arbóreo com altura predominante entre 6-10m, um estrato arbustivo e um herbáceo, podendo este último ser mais ou menos desenvolvido, dependendo das condições locais. Este tipo vegetacional recebe denominações diversas, sendo as mais comuns "floresta paludosa" ou "úmida" (HERTEL, 1959; RIZZINI, 1963, ARAUJO & HENRIQUES, 1984, WAECHTER, 1985; HENRIQUES et al., 1986).

Estas duas classes de formações aparecem intercaladas sobre a planície costeira da Ilha do Mel, indicando a sucessão de deposição dos cordões litorâneos que lhes deu origem. A floresta arenosa ocorre na parte alta dos cordões enquanto a floresta arenosa ocupa as depressões entre os cordões.

As espécies mais representativas da floresta arenosa são Tapirira guianensis, Ocotea pulchella, Guapira opposita, Ternstroemia brasiliensis, Myrcia multiflora, Clusia criuva, Ilex theezans e I. pseudobuxus, Erythroxylum amplifolium e Psidium cattleianum. Na floresta paludosa destacam-se Calophyllum brasiliense, Tabebuia cassinoides,Pouteria beaurepairei, e várias espécies de Myrtaceae, tais como, Myrcia racemosa, Myrcia grandiflora, Myrcia insularis, Marlierea tomentosa e M.reitzii.

Um fato notável é a ocorrência de um estrato arbustivo e de outro herbáceo bem desenvolvido, além da presença de epífitas e lianas em ambos os tipos vegetacionais. Espécies arbóreas baixas e\ou arbustivas como Rudgea villiflora, Faramea marginata,  Alibertia concolor e Geonoma schottiana são freqüentes no subosque destas florestas.

Dentre as espécies herbáceas destacam-se as pteridófitas, especialmente Nephrolepis biserrata, Nephrolepis rivularis,  Pecluma paradisiae, Blechnum serrulatum e Rumohra adiantiforme, além de rubiáceas, ciperáceas, poáceas e bromeliáceas.

Dentre as epífitas, destacam-se as famílias Bromeliaceae, Orchidaceae, Araceae, Cactaceae e  Gesneriaceae entre as fanerógamas, e Polypodiaceae dentre as pteridófitas.

Ainda dentro das áreas de formações pioneiras com influência marinha deve ser mencionada a vegetação que ocorre nos costões rochosos dos morros da parte leste-sul da Ilha. Esta recobre de forma muito característica as frestas e platôs de rochas, normalmente onde as condições propiciam a ocorrência de maior quantidade de matéria orgânica e umidade. As espécies mais freqüentes e que imprimem um aspecto fisionômico mais característico a estes locais são os caraguatás (Dyckia encholirioides e Aechmea organensis), a orquídea Epidendrum fulgens, a pteridófita Rumohra adiantiforme, além de várias espécies de poáceas e ciperáceas. Algumas espécies arbustivas podem ser freqüentes nestes locais, notadamente a capororoquinha (Rapanea parvifolia), a maria-mole (Guapira opposita), o feijão-da-praia (Sophora tomentosa), a orelha-de-onça (Tibouchina clavata) e o canudo-de-pito (Senna bicapsularis). A vegetação que ocorre nos costões rochosos é denominada na literatura de "vegetação pioneira litófita" (WAECHTER, 1985), "sub-formações litófita e casmófita" (HERTEL, 1959), "comunidade litófita" (FIGUEIREDO, 1954; RIZZINI, 1963), ou simplesmente "litoral rochoso" (RAWITSCHER, 1944; STELLFELD, 1949; JOLY, 1970; FERRI, 1980).

Formações Pioneiras com Influência Fluvial

Esta denominação inclui as comunidades vegetais ocorrentes em locais que refletem processos de "cheias" de rios em épocas chuvosas, como a maioria dos rios da planície costeira da Ilha, ou então que vivem em depressões alagáveis durante ao menos um período do ano, com periodicidade e duração variáveis.

Na Ilha do Mel, este tipo vegetacional está representado pelos brejos herbáceos situados nas depressões entre os cordões litorâneos, onde predominam espécies de ciperáceas e poáceas, muitas das quais indeterminadas até o momento, além da taboa (Typha dominguensis), espécie de ampla distribuição no Brasil, ocorrendo sempre em áreas brejosas. O lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), espécie originária da África, ocorre com frequência nestas áreas, especialmente naquelas mais próximas a locais perturbados. Também estão representados brejos com vegetação arbórea, com indivíduos de até 10 metros de altura, onde Rapanea intermedia é a espécie dominante e os "caxetais", ambientes higrófilos com predomínio da caxeta (Tabebuia cassinoides), caracterizados pela ocorrência expressiva desta espécie, associada a várias outras, muitas das quais ocorrentes também em outras comunidades vegetais da Ilha. A literatura trata os brejos herbáceos sob distintas denominações, como "prado úmido" (FIGUEIREDO, 1954), "brejo litorâneo" (MAACK, 1981), "comunidade hidrófila da restinga"(RIZZINI, 1963) e "brejo herbáceo"(ARAUJO & HENRIQUES, 1984).

Formações Pioneiras com Influência Flúvio-Marinha

Nesta categoria incluem-se os manguezais e as áreas de marismas, também chamados de "brejos salinos", que na Ilha do Mel ocupam área pouco representativa, especialmente quando comparado a áreas localizadas nas partes mais internas da Baía de Paranaguá. As maiores extensões de manguezais e marismas são encontradas na parte norte-oeste, especialmente nas desembocaduras dos pequenos rios da planície litorânea, e também entre a Nova Brasília e o Morro do Miguel, no Saco do Limoeiro.

Como a maior parte dos manguezais do sul e sudeste do Brasil, ocorrem na Ilha apenas três espécies arbóreas, que raramente ultrapassam 10m de altura total, e apresentam padrão de distribuição variável, dependendo das condições locais; são elas o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-branco (Laguncularia racemosa) e a siriúba (Avicennia schaueriana). As áreas de marismas mais desenvolvidas podem ser vistas próximas à Nova Brasília, no "mar de dentro", sendo caracterizados pela cobertura quase contínua de um poácea denominada popularmente de praturá (Spartina alterniflora), juntamente com indivíduos jovens das espécies arbóreas características. Normalmente esta faixa antecede as áreas com vegetação arbórea, sendo muitas vezes interpretadas como um estágio inicial na formação dos manguezais (FIGUEIREDO, 1954).

Nas zonas de transição entre os manguezais e outros tipos vegetacionais, principalmente pertencentes à categoria das formações pioneiras com influência marinha, ocorrem espécies típicas destes locais, principalmente a uvira (Hibiscus tiliaceus), a azeitona-da-praia (Ximenia americana), a corticeira-do-brejo (Erythrina speciosa), o marmeleiro-da-praia (Dalbergia ecastophylla), e as pteridófitas Acrostichum danaefolium e Blechnum brasiliense.

Floresta Ombrófila Densa Atlântica

Seguindo o sistema de classificação da vegetação proposto por VELOSO et al. (1991), a região da Floresta Ombrófila Densa é subdividida conforme a altitude do seu respectivo local de ocorrência. Na Ilha do Mel estão representadas apenas a Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas, que ocorre nas porções mais internas na planície costeira, e a Floresta Ombrófila Densa Submontana, ocorrente nos morros do Meio, do Miguel e Bento Alves, principalmente.

A Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas ocorre de forma mais expressiva na planície da parte norte da Ilha, onde o alinhamento dos cordões litorâneos não é tão visível, e representa o máximo de desenvolvimento da vegetação da planície costeira da Ilha do Mel, correspondendo aos locais mais antigos desta, em termos de formação.

As árvores mais altas atingem entre 20-25m de altura, constituindo um dossel mais ou menos contínuo, onde destacam-se a  caxeta (Tabebuia cassinoides), a cupiúva (Tapirira guianensis), o guanandi (Calophyllum brasiliense), a baga-de-macaco (Pouteria beaurepairei),  o ingá-mirim (Inga luschnatiana), o tapiá (Alchornea triplinervia), o racha-ligeiro (Pera glabrata), a sapopema (Sloanea guianensis), o miguel-pintado (Matayba guianensis), a canela-garuva (Nectandra mollis subsp oppositifolia), a canela-pimenta (Ocotea pulchella), a canela-amarela (Ocotea aciphylla), o mandiocão (Dydimopanax angustissimum), a cajarana (Cabralea canjerana), o ipê-da-várzea (Tabebuia umbellata), além de várias espécies de mirtáceas (Myrcia glabra, Myrcia rostrata, Calyptranthes lucida, Gomidesia schaueriana, entre outras). No estrato arbóreo inferior, com alturas predominantes entre 6-10m predominam rubiáceas (Faramea marginata e Posoqueria latifolia), mirtáceas (Marlierea eugeniopsoides e Marlierea tomentosa) e arecáceas (Euterpe edulis e Geonoma schottiana). No estrato arbustivo-herbáceo são comuns espécies de rubiáceas, principalmente Psychotria barbiflora e Psychotria leiocarpa, mas o elemento mais característico é Nidularium innocentii, uma bromeliácea terrestre que forma extensos agrupamentos, chegando a ocupar por vezes grandes áreas. Além destas são comuns também várias espécies de pteridófitas, principalmente das famílias Dryopteridaceae e Thelypteridaceae. As epífitas e trepadeiras lenhosas também são bastante comuns neste tipo vegetacional, pertencentes principalmente às famílias Bromeliaceae (Vriesea, Aechmea, Catopsis e Tillandsia), Orchidaceae (Anacheilium, Encyclia, Stelis, Trigonidium e Epidendrum), e Polypodiaceae (Polypodium, Microgramma, Campyloneuron), e Dilleniaceae (Davilla rugosa e Doliocarpus schottianus), Smilacaceae (Smilax elastica e Smilax longifolia)  e Asteraceae (Mikania), respectivamente.

Nos morros da parte leste-sul da Ilha, especialmente do Meio, do Miguel e Bento Alves, formados por rochas antigas do complexo cristalino brasileiro, ocorrem, em maior ou menor extensão, a Floresta Ombrófila Densa Submontana e áreas com vegetação secundária em diferentes estágios de desenvolvimento. O fato das áreas de morro possuírem solos com características fisico-químicas mais adequados a práticas agrícolas levou a uma maior procura no passado por estas áreas, para o plantio de pequenas roças (mandioca, cana-de-açúcar, banana, feijão, cítricos) e conseqüentemente proporcionou uma maior ocorrência de locais dominados por vegetação secundária. Outra perturbação perceptível nestas áreas é a extração seletiva de madeira e palmito (Euterpe edulis). Muitas vezes torna-se difícil a distinção entre as florestas secundárias mais desenvolvidas e as florestas primárias, mais ou menos perturbadas por extração seletiva de espécies.

As árvores mais altas atingem entre 20-25m de altura, com epifitismo acentuado, especialmente nos indivíduos mais desenvolvidos, e abundância de trepadeiras lenhosas (lianas). Dentre as árvores destacam-se a estopeira (Cariniana estrellensis), o guatambu (Aspidosperma olivaceum), a licurana (Hyeronima alchorneoides), a maçaranduba (Manilkara subsericea), a bocuva (Virola oleifera), o cedro (Cedrela cf odorata), o ipê-da-serra (Tabebuia cf velosoi), o embirussu (Pseudobombax grandiflorum), as figueiras (Ficus glabra, Ficus insipida), e várias espécies de mirtáceas.

O estrato arbóreo inferior, com altura predominante entre 6-10m, é constituído predominantemente por mirtáceas e rubiáceas; dentre as primeiras as mais freqüentes são Psychotria nuda e Rudgea jasminoides. Além destas são comuns o bacopari (Rheedia gardneriana), o pau-de-cutia (Esenbeckia grandiflora), o chincho (Sorocea bonplandii), e o timbó (Dahlstedtia pentaphylla). Palmeiras dos gêneros Bactris e Geonoma ocorrem em alguns locais, principalmente mais úmidos e sombreados.

Dentre as pteridófitas arborescentes (Cyatheaceae) destacam-se Trichipteris corocovadensis, Trichipteris atrovirens e Trichipteris leucolepis, esta última somente encontrada até o momento em locais úmidos a beira dos pequenos rios existentes nos morros.

No estrato herbáceo, descontínuo, são comuns várias espécies de pteridófitas, acantáceas, rubiáceas, aráceas e piperáceas, além de poáceas e ciperáceas características de locais úmidos e sombreados. Freqüentemente são encontrados matacões rochosos dentro da floresta, ocupados por espécies tipicamente rupícolas, ou então por outras ocorrentes no estrato herbáceo, com destaque principal para várias espécies de pteridófitas, além de bromeliáceas e aráceas.

As epífitas estão representadas principalmente por bromeliáceas, orquidáceas, aráceas e cactáceas, enquanto as trepadeiras mais freqüentes pertencem às famílias Dioscoreaceae, Smilacaceae, Fabaceae, Apocynaceae, Dilleniaceae e Asteraceae.

Vegetação Secundária com Influência Antrópica

As áreas de vegetação secundária são aquelas onde houve alguma intervenção humana para utilização da terra, independente da sua finalidade; na Ilha esta utilização se deu principalmente para práticas agrícolas. Estas áreas, quando abandonadas reagem diferencialmente, dependendo do tempo de abandono e a categoria de uso, refletindo, no entanto, os parâmetros ecológicos do ambiente. A seqüência de eventos que ocorre em uma área que teve sua vegetação natural removida e foi posteriormente abandonada recebe o nome de "sucessão vegetal", e neste processo podem ser reconhecidas diferentes etapas, de fisionomia e tempo de duração relativamente variáveis, dependendo das condições locais.

Normalmente são reconhecidos os estágios iniciais, intermediários e avançados, denominados respectivamente de "capoeirinha", "capoeira",  e "capoeirão".

A "capoeirinha" caracteriza-se por uma cobertura herbácea bastante densa, onde predominam espécies de poáceas (Imperata brasiliensis, Erianthus trinii, Melinis minutiflora e Cortaderia selloana) e asteráceas (Vernonia beyrichii, Vernonia flexuosa, Vernonia scorpioides, Solidago chilensis e Eupatorium inulaefolium, entre outras), principalmente, podendo ainda ocorrer algumas espécies de pteridófitas, notadamente Pteridium aquilinum e Blechnum serrulatum. A maior expressão deste tipo de vegetação secundária pode ser observada nos morros do Farol, do Joaquim, do Caraguatá, das Encantadas e na ponta da Nhá Pina,  chamada por FIGUEIREDO (1954) de "campina dos morros".

Na "capoeira", além das espécies citadas anteriormente, ocorrem espécies arbustivas denominadas popularmente de "vassouras", pertencentes à família Asteraceae (Baccharis), sendo também reconhecida por este nome a sapindácea Dodonaea viscosa. Devido à predominância destas espécies em determinadas condições, freqüentemente esta fase é denominada de "vassoural". Nesta fase podem ser encontrados vários indivíduos jovens de espécies tipicamente arbóreas dos estágios mais avançados da sucessão vegetal.

O capoeirão representa um estágio bastante avançado da sucessão vegetal, onde há um predomínio de espécies arbóreas pioneiras, havendo uma considerável diminuição da cobertura proporcionada pelas espécies herbáceas. São freqüentes neste estágio várias espécies de Melastomataceae, vulgarmente chamadas de jacatirão e\ou quaresmeira, dentre as quais destacam-se Tibouchina sellowiana, Tibouchina pulchra, Miconia cinnamomifolia, Miconia cabucu e Miconia dodecandra. Além destas espécies, também são freqüentes a jacataúva (Citharexylum myrianthum) e as embaúbas (Cecropia glaziovii e Cecropia pachystachya).

A tendência da vegetação secundária ao longo do tempo é reconstituir a vegetação original existente antes da perturbação, sendo os estágios mais avançados, normalmente denominados de "florestas secundárias", dificilmente distinguíveis do ponto de vista fisionômico da vegetação primária.

A VEGETAÇÃO DA ESTAÇÃO ECOLÓGICA DA ILHA DO MEL (EEIM)

A EEIM inclui áreas com diferentes tipos de cobertura vegetal, evidenciados tanto pela documentação aerofotográfica, como pelas diferentes fitofisionomias observadas em campo. Variam desde tipos predominantemente herbáceos, passando por agrupamentos arbustivos, densos ou abertos, até florestas bem desenvolvidas, com dois estratos arbóreos, um arbustivo e um herbáceo. Tais tipos vegetacionais são bastante representativos de boa parte do litoral paranaense, notadamente das porções geologicamente mais recentes da planície litoránea, não só das partes insulares, como também das continentais.

As descrições ora apresentadas baseiam-se em mais de 10 anos de trabalhos abordando tanto aspectos florísticos, como fitossociológicos da vegetação da Ilha do Mel, cujos resultados parciais podem ser encontrados em BIDÁ et al. (1986), BRITEZ et al. (1989), SILVA et al. (1989), SILVA (1990), SILVA et al. (1994) e SILVA et al. (dados não publicados).

A vegetação das praias e dunas frontais está bem representada na área da EEIM nas imediações da Ponta do Bicho, e também em alguns trechos das Praias do Cedro e do Limoeiro, no chamado Mar de Dentro. Normalmente este tipo está associado a depósitos praiais relativamente recentes, não ocorrendo em locais que vêm sofrendo erosão marinha. Processos erosivos e deposicionais no litoral paranaense são comuns, e relacionam-se com a estabilidade da linha de costa, conforme descrito por PARANHOS F° et al. (1994), e a vegetação desempenha um papel importante no processo, auxiliando na estabilização do substrato.

As espécies ocorrentes nestas regiões apresentam características morfo-fisiológicas peculiares, que evidenciam grande capacidade adaptativa às condições extremas do ambiente, tais como mobilidade do substrato, alta salinidade, abrasão provocada pelo transporte eólico dos sedimentos, deficiência de matéria orgânica, e altas temperaturas e incidência solar, entre outros. Destacam-se espécies dotadas de longos caules rastejantes, que desprendem-se do substrato por ação das marés mais altas episódicas, tornando a fixarem-se em situações de normalidade, atuando ainda como órgãos de propagação vegetativa. A suculência das folhas em algumas espécies também é evidente, e pode relacionar-se com o armazenamento de água e/ou sais. O hábito cespitoso de algumas poáceas e ciperáceas também é comum, favorecendo muito a estabilização do substrato. Muitas espécies mostram comportamento fotossintético peculiar (C4 e CAM), além de apresentarem um sistema eficiente de controle transpiratório e estruturas especializadas em eliminar o excesso de sal absorvido do substrato.

A predominância nas paias e dunas recentes é de espécies herbáceas, estoloníferas, rizomatosas e/ou cespitosas, que formam uma cobertura descontínua, que raramente ultrapassa 50 cm de altura, dentre as quais destacam-se Spartina ciliata, Panicum sp, Sporobolus virginicus e Stenotaphrum secundatum (POACEAE), Ipomoea pescaprae e I. littoralis (CONVOLVULACEAE), Hydrocotile bonariensis e Apium prostatum (APIACEAE), Blutaparon portulacoides (AMARANTHACEAE), Cyperus obtusatus, C. polystachyos e C. ligularis (CYPERACEAE), Vigna luteola (FABACEAE), Dickia encholirioides (BROMELIACEAE), Epidendrum fulgens e Cyrtopodium polyphyllum (ORCHIDACEAE), além de várias espécies de Asteraceae, de menor importância sociológica e fisionômica.

Nos locais mais afastados da atual linha de praia, com vegetação mais desenvolvida e já estabilizada, destacam-se espécies arbustivas baixas, com maior cobertura, e alturas que variam de 50cm a 2m, onde o marmeleiro-da-praia (Dalbergia ecastophylla - FABACEAE) é o elemento mais característico. é relativamente comum encontrar-se sob os indivíduos desta espécie espécies herbáceas das zonas de praia, já citadas, além de indivíduos jovens de espécies lenhosas, tais como Calophyllum brasiliense (CLUSIACEAE), Annona glabra (ANNONACEAE), Laguncularia racemosa (COMBRETACEAE), Rhizophora mangle (RHIZOPHORACEAE) e Hibiscus tiliaceus (MALVACEAE). Outras espécies de hábito arbustivo que frequentemente ocorrem nestes locais são Tibouchina clavata (MELASTOMATACEAE), Cordia verbenacea (BORAGINACEAE), Eupatorium casaretoi (ASTERACEAE) e Sophora tomentosa (FABACEAE), além de outras características das fisionomias arbustivo-arbóreas mais desenvolvidas da planície costeira, descritas posteriormente.

Após esta faixa de largura variável, que inclui a parte superior da praia (zona supralitoral) e as pequenas dunas estabilizadas, ocorre um tipo vegetacional arbustivo fechado, com altura média de 3m, variando de 2 a 5m, onde a densidade dos indivíduos e a área basal são bastante altas (ca. 4.900 indiv./ha e 35m2/ha, respectivamente), mas a diversidade é baixa (H'= 2.83). Como espécies mais características desta zona podem ser citados Guapira opposita (NYCTAGINACEAE), Tapirira guianensis e Schinus terebinthifolius (ANACARDIACEAE), Ocotea pulchella (LAURACEAE), Ternstroemia brasiliensis (THEACEAE), Pera glabrata (EUPHORBIACEAE), Maytenus robusta (CELASTRACEAE), Rapanea venosa e R. parvifolia (MYRSINACEAE), Ilex theezans (AQUIFOLIACEAE), Eugenia umbelliflora e Psidium cattleianum (MYRTACEAE).

Sob as copas densas e fechadas dos indivíduos destas espécies desenvolve-se um estrato herbáceo descontínuo, caracterizado por agrupamentos localizados de algumas espécies, tais como Aechmea ornata, A. pectinata, A. nudicaulis, Ananas bracteatus e Bromelia antiacantha (BROMELIACEAE), além de outras com coberturas expressivas como as pteridófitas Rumohra adiantiforme (DRYOPTERIDACEAE), Pecluma paradisiae (POLYPODIACEAE) e Blechnum serrulatum (BLECHNACEAE), e espécies de Poáceas, Rubiáceas, Aráceas e Piperáceas, com menores valores sociológicos.

O epifitismo nestas comunidades é bastante acentuado, onde cerca de 90% dos indivíduos com circunferência a altura do peito maior ou igual a 30cm apresentam epífitas, com destaque para Microgramma vaccinifolia (POLYPODIACEAE), Codonanthe gracilis (GESNERIACEAE), A. nudicaulis, Vriesea rodigasiana e V.procera (BROMELIACEAE) e Epidendrum ramosum, E. latilabre e Vanilla chamissonis (ORCHIDACEAE). As lianas (trepadeiras lenhosas) também são frequentes, destacando-se espécies das famílias Smilacaceae, Asteraceae, Dilleniaceae e Sapindaceae.

Outra fitofisionomia muito característica da EEIM é constituída por arbustos e arvoretas com alturas de até 5m, formando agrupamentos muitas vezes semelhantes a "moitas", de formato e tamanho variáveis, intercalados por áreas abertas, muitas vezes com uma cobertura praticamente contínua de musgos e líquens. A densidade dos indivíduos lenhosos é de aproximadamente 3.200 indiv./ha, enquanto a área basal é de 15m2/ha, valores menores aos observados para o tipo vegetacional anteriormente descrito, assim como o índice de diversidade (H'), que nestas áreas fica em torno de 2,31. Uma característica fisionômica que chama muito a atenção nestas comunidades é grande número de indivíduos ramificados desde a base, formando copas muito amplas e baixas. é importante ressaltar que muitas vezes a definição das "moitas" não é clara, como se com o desenvolvimento destas formassem uma comunidade com um estrato superior +/- contínuo, com altura normalmente entre 3-5m. Dentre os elementos arbustivo-arbóreos características desta fisionomia destacam-se G. opposita, P.cattleianum, T. brasiliensis, O. pulchella, , T. guianensis e I. theezans, já citados anteriormente, além de Erythroxylum amplifolium (ERYTHROXYLACEAE), Abarema lusoria (MIMOSACEAE), Myrcia multiflora (MYRTACEAE) e Andira fraxinifolia (FABACEAE). Uma espécie que destaca-se nestas comunidades, ocorrendo de forma bastante expressiva principalmente nas orlas das moitas e/ou nos locais mais abertos é a camarinha (Gaylussacia brasiliensis - ERICACEAE), pequeno arbusto de até 1.5m de altura, que chega muitas vezes a formar agrupamentos quase homogêneos.

Dentre as espécies herbáceas mais frequentes que desenvolvem-se sob a vegetação arbustiva e também nas áreas abertas, destacam-se B. serrulatum e R. adiantiforme, além de Fabáceas e Poáceas, entre outras. Uma espécie muito comum nestes locais, de hábito trepador mas que em locais abertos frequentemente desenvolve-se prostrada sobre o solo é Smilax campestris (SMILACACEAE), também ocorrente em outras fitofisionomias mais desenvolvidas estruturalmente. O epifitismo nestas comunidades é pouco expressivo, representado basicamente pelas mesmas espécies já relacionadas anteriormente.

Nas áreas da EEIM onde a sucessão de cordões litoraneos que originaram grande parte da planície costeira são bem evidentes, ocorre uma alternância de dois tipos florestais muito caraterísticos, denominados comumente como "floresta arenosa" e "floresta paludosa", que ocupam as partes altas e baixas dos cordões, respectivamente.

Uma área da Ilha que apresenta estes tipos vegetacionais foi estudada por SILVA et al.(1993), onde são apresentadas as espécies ocorrentes e seus principais parâmetros fitossociológicos em cada uma das situações descritas.

A espécie com maior importância no levantamento é o guanandi (Calophyllum brasiliense), mostrando os maiores valores de frequência e dominância, especialmente na floresta paludosa. Além desta espécie, destacam-se ainda nesta vegetação a caxeta (Tabebuia cassinoides), a baga-de-macaco (Pouteria beaurepairei) além de várias espécies de Myrtaceae, denominadas popularmente de guamirins e/ou cambuís, especialmente Myrcia acuminatissima, Myrcia grandiflora, Myrcia insularis e Marlierea tomentosa. Algumas áreas de floresta paludosa da Ilha, especialmente as que acompanham pequenos cursos de água, assemelham-se florística e estruturalmente aos "caxetais" mais desenvolvidos estudados por ZILLER (1992) no litoral paranaense. À medida em que se afasta da área alagável, há um aumento dos valores de importância de espécies como  a canela-pimenta (Ocotea pulchella), o mangue-formiga (Clusia criuva), a caúna-da-praia (Ilex pseudobuxus), a manjuruvoca (Ternstroemia brasiliensis), a fruta-de-pomba (Erythroxylum amplifolium), o araçá (Psidium cattleianum), o cambuí (Myrcia multiflora) e a maria-mole (Guapira opposita). Estas espécies ocorrem freqüentemente em outros locais da Ilha do Mel, como integrantes de outras comunidades vegetais, podendo inclusive destacarem-se também nestas situações.

Na parte transicional entre as regiões inundável e não inundável, destacam-se espécies como o murici-da-praia (Byrsonima ligustrifolia) e o xaxim-de-espinho (Trichipteris atrovirens), este último de grande importância estrutural e fisionômica.

A região livre de inundações (floresta arenosa) pode ser caracterizada por apresentar indivíduos menores, mais agrupados, sendo muitos destes ramificados desde a base.

Um fato notável é a ocorrência de um estrato arbustivo e de outro herbáceo bem desenvolvido, além da presença de epífitas e lianas em ambos os tipos vegetacionais. Espécies arbóreas baixas e\ou arbustivas como Rudgea villiflora, Faramea marginata,  Alibertia concolor e Geonoma schottiana são freqüentes no subosque destas florestas.

Dentre as espécies herbáceas destacam-se as pteridófitas, especialmente Nephrolepis biserrata, Nephrolepis rivularis,  Pecluma paradisiae, Blechnum serrulatum e Rumohra adiantiforme, além de rubiáceas, ciperáceas, poáceas e bromeliáceas.

Dentre as epífitas, destacam-se as famílias Bromeliaceae, Orchidaceae, Araceae, Cactaceae e  Gesneriaceae entre as fanerógamas, e Polypodiaceae dentre as pteridófitas.

Estes dois tipos florestais característicos de boa parte da planície costeira da Ilha, parecem ser determinados basicamente por condições diferenciais de drenagem do terreno. Muito embora sejam bastante típicos, têm alguns pontos em comum, como a abundância e semelhança florística das epífitas, frequência e densidade de espécies de Myrtaceae, e ocorrência simultânea de algumas espécies, conforme mencionado por WAECHTER (1985; 1990) para o estado do Rio Grande do Sul.

A distinção entre estes tipos vegetacionais, especialmente as florestas paludosas, e a Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas não é clara, havendo uma transição gradual tanto florística como estrutural.

. A maior ou menor diversidade dos "caxetais" está principalmente relacionada com o estágio sucessional nos quais encontram-se; nos estágios iniciais, a caxeta tem pequeno porte e aparece associada a espécies predominantemente herbáceas e arbustivas, enquanto nos estágios mais desenvolvidos associa-se a espécies arbóreas, especialmente o guanandi (Calophyllum brasiliense), sendo muitas dominadas por estas. Na Ilha, caxetais em estágios iniciais de desenvolvimento podem ser encontrados na planície da Praia Grande e nas proximidades da Ponta Oeste, enquanto os mais evoluídos são facilmente encontrados na planície da parte norte, especialmente ao longo dos pequenos rios que cortam a região, como os rios do Cassual e do Hospital.

Os caxetais do litoral paranaense têm despertado muito a atenção de vários pesquisadores, pois a madeira desta espécie possui propriedades interessantes para determinados tipos de uso, e representa um importante recurso natural a ser manejado e utilizado de forma sustentada pela população local. Um estudo florístico e fitossociológico de algumas áreas de caxetais no nosso litoral foi realizado por ZILLER (1992).

A "floresta arenosa" tem altura média entre 7-9m, com densidade de indivíduos arbustivo-arbóreos entre 2.500-2.800 indiv./ha, área basal de aproximadamente 24 m2/ha e índice de diversidade (H') em torno de 2.52. Ocorre preferencialmente nas partes altas dos cordões litoráneos, com solos de drenagem rápida e lençol freático mais profundo. Como espécies dominantes destacam-se O. pulchella, T. brasiliensis, E. amplifolium, P. cattleianum, M. multiflora, G. opposita, já citadas anteriormente, além de Clusia parviflora (CLUSIACEAE) e Ilex pseudobuxus (AQUIFOLIACEAE).

A "floresta paludosa" tem ocorrência preferencial nas depressões entre os cordões litoraneos, onde frequentemente aflora o lençol freático, ou então correm pequenos rios de água escura ("gamboas"), sempre relacionadas a solos fortemente influenciados por condições hidromórficas. Tem estrato arbóreo dominante com altura entre 10-15m, densidade de aproximadamente 1500-1700 indiv./ha, área basal superior a 30m2/ha e diversidade (H') de 3.24. As espécies arbóreas dominantes são principalmente Calophyllum brasiliense (CLUSIACEAE), T. guianensis, Pouteria beaurepairei (SAPOTACEAE), Rapanea intermedia (MYRSINACEAE), Tabebuia cassinoides (BIGNONIACEAE), enquanto o estrato arbóreo inferior e o subosque é constituído basicamente por mirtáceas, dentre as quais destacam-se Myrcia grandiflora, M. racemosa, M.insularis, Marlierea tomentosa e M. reitzii. No subosque ainda destacam-se espécies de Rubiaceae e Arecaeae, muitas das quais já citadas para a "floresta arenosa".

No estrato herbáceo, frequentemente descontínuo, destaca-se Becquerelia cymosa (CYPERACEAE), além de outras espécies de menor expressão sociológica pertencentes às famílias Rubiaceae, Solanaceae e Bromeliaceae, com destaque nesta última para Nidularium innocentii, que em alguns locais forma agrupamentos relativamente extensos.

A presença de lianas e  epífitas também é marcante nestas florestas, destacando-se espécies das famílias já citadas anteriormente nos demais tipos vegetacionais descritos na planície costeira da Ilha do Mel.

Na parte mais interior da EEIM, onde a alternância de cordões litoráneos não é tão definida, ocorre uma floresta bem desenvolvida, com indivíduos arbóreos de até 25m de altura, onde C. brasiliense e T. cassinoides são os elementos dominantes, associados a P. beaurepairei e várias espécies de Myrtaceae, sendo que desta última muitos elementos constituem também o subosque florestal. Nestas florestas ainda podem ser encontrados alguns indivíduos de palmito (Euterpe edulis - ARECACEAE), provavelmente em densidade muito abaixo da que já ocorreram na Ilha, em função do corte seletivo ao qual foram submetidos em épocas passadas. Em termos de composição geral dos diferentes estratos florestais, e também do estrato herbáceo e das comunidades de lianas e epífitas, este tipo vegetacional assemelha-se muito às "florestas paludosas", já descritas anteriormente.

Nas proximidades das desembocaduras dos pequenos rios que cortam a EEIM, ocorrem áreas pouco extensas de manguezais, mais desenvolvidos nas suas respectivas porções oeste-norte. Predominam nestes locais as espécies lenhosas comuns em todos os manguezais paranaenses, como Laguncularia racemosa (COMBRETACEAE), Rhizophora mangle (RHIZOPHORACEAE) e Avicennia schaueriana (VERBENACEAE), além de uma espécie de poácea (Spartina alterniflora), que normalmente ocorre nas partes quase que permanentemente submersas deste tipo vegetacional.

Associados aos manguezais, ocorrem áreas transicionais destes para as formações arbustivo-arbóreas da planície costeira, que podem tanto ser representadas por espécies lenhosas de hábito arbustivo-arbóreo, como Hibiscus tiliaceus (MALVACEAE), Annona glabra (ANNONACEAE), Erythrina speciosa e Dalbergia ecastophylla (FABACEAE), e Ximenia americana (OLACACEAE), além de outras de hábito herbáceo, notadamente da família Cyperaceae, que em alguns locais chegam a constituir agrupamentos densos e de relativa extensão, denominados comumente de "brejos herbáceos". Estes são importantes refúgios e locais de alimentação da capivara, que na EEIM ainda pode ser frequentemente encontrada. Uma espécies de Pteridófita muito comum nestas áreas é Acrostichum danaefolium (Pteridaceae), com folhas que atingem mais de 1.5m de comprimento, destacando-se em meio às folhas finas das ciperáceas dominantes nestes locais.

Em relação aos aspectos ecológicos que propiciam o desenvolvimento destas diferentes formações vegetais, destacam-se os relacionados as características do solo e da influência marinha.

O solo arenoso, é influenciado pela altura do lençol freático, que conforme a distância da superfície, proporcionará uma maior disponibilidade de água e nutrientes as plantas, ou mesmo, o excesso, dando origem as diversas fisionomias vegetais com seus respectivos graus de desenvolvimento. Aliada a esta situação, também influenciam o estádio sucessional das formações, principalmente nas áreas formadas mais recententemente. Conforme a disponibilidade de água mais próxima do ideal para o desenvolvimento das plantas neste sistema, as formações vegetais irão apresentar maior ou menor produtividade em seu ciclo de nutrientes, como conseqüência as florestas mais desenvolvidas apresentam um ciclo com uma maior produção de matéria orgânica, aumentando a atividade biológica no solo e em função da decomposição propiciando uma maior disponibilidade de nutrientes as plantas.

BRITEZ (1994) e BRITEZ et al (1994), estudaram aspectos relativos a ciclagem de nutrientes em duas florestas da EEIM, amostrando  formações  representativas desta área. Estas ocorrem próximas uma da outra, e foram denominadas de  "restinga baixa" e "restinga alta", correspondendo a formações com o estrato arbóreo superior  com alturas variando entre  8-15 metros e 15-25 metros, respectivamente. Enquanto a primeira ocorre nas partes mais elevadas dos cordões litorâneos em local mais seco, a segunda vai aparecer nas depressões onde frequentemente há o afloramento do lençol freático.

Os solos nestas áreas apresentam baixa CTC com poucos sítios para retenção de íons, alta potencialidade de lixiviação, fazendo com que a matéria orgânica seja a principal responsável pela retenção de íons no solo. Embora a fertilidade dos solos seja considerada bastante baixa a vegetação  apresenta-se bem desenvolvida.

Os solos das duas áreas estudadas,  são semelhantes a nível de fertilidade. Os valores de soma e saturação de bases trocáveis são bastante próximos, ocorrendo também, a presença de dois compartimentos distintos de nutrientes, um no horizonte A1 e outro no horizonte B iluvial, divergindo na disponibilidade de nutrientes do horizonte B iluvial, maior na restinga alta.

Os  mecanismos  de  conservação  de  nutrientes  em Ecossistemas com solos oligotróficos (pobres em nutrientes), foram  detectados também  na vegetação da restinga da Ilha do Mel. Estes mecanismos  são:  uma  rede  de  raízes  penetrando  na serapilheira  superficial, recuperando  rapidamente  os nutrientes  das  folhas  caídas e da  chuva  antes  que ocorra lixiviação; a presença de micorrizas auxiliando na absorção de nutrientes; atividade biológica;  caráter perenifólio; capacidade de translocar nutrientes  antes da  abcisão foliar; acúmulo de nutrientes  na  biomassa aérea; e eficiência elevada na utilização de nutrientes pela vegetação.

Além  destes  mecanismos, a vegetação  da  restinga apresenta  um  aporte  de nutrientes,  provenientes  do oceano,  onde  através da água da chuva e  do  material depositado   na   copa  das  árvores pela salsugem (maresia), são  prontamente incorporados ao sistema, neste caso representando cerca de 40 % dos nutrientes que chega ao solo da floresta.

O processo de ciclagem de nutrientes é semelhante nas duas áreas, evidenciado pelo comportamento bastante próximo no  que  diz  respeito  a  sazonalidade da deposição   de  serapilheira,  indicando   uma   reação similiar   nestes  dois  locais  frente  as   condições climáticas.  Da  mesma forma os  teores  de  nutrientes apresentaram    valores    próximos   em    todos os compartimentos estudados.

A  diferença  entre as áreas,  está  relacionada  a maior produtividade da restinga alta, o que se  reflete em uma deposição  mais  elevada de folhedo e conseqüentemente  de  quantidade de  nutrientes,  maior acúmulo  de  nutrientes  no  solo  através  da  matéria orgânica  e maior acumulo de nutrientes na  biomassa  e mineralomassa vegetal.

Devido  a formação recente da planície costeira  da área  estudada  na ilha do Mel (menos de  5.000  anos), tanto  a restinga baixa quanto a alta, devem  ter  sido formadas  simultaneamente,  somente  que  num  processo sucessional diverso, onde a restinga alta  desenvolveu-se mais rapidamente devido a maior umidade do solo.

Portanto,  dentre  os  fatores  que  determinam   a produtividade   do   ecossistema   (energia,   água   e nutrientes),    a   água   influenciou    de    maneira significativa na maior produtividade da restinga  alta.

A proximidade do lençol freático a superfície, propicia uma  maior  disponibilidade  de água  e  nutrientes  na restinga  alta  em contrapartida  a  restinga  baixa  e freqüentemente influenciada pelo estresse hídrico entre os períodos de ocorrência de precipitações.

Estes aspectos evidenciam a fragilidade deste ecossistema, em caso de retirada da sua cobertura vegetal, restaria apenas um solo arenoso, bastante infértil, com pouca possibilidade de existir alguma atividade produtiva.

ASPECTOS RELACIONADOS A INTERAÇÃO FLORA/FAUNA

Nos ecossistemas naturais a interação flora e fauna apresenta diversos aspectos. A vegetação representa a principal fonte de alimento para a fauna. Na EEIM mais de 60 % das espécies vegetais apresentam zoocoria, ou seja, dispersão dos frutos por animais, desta forma estes servem de alimento ao mesmo tempo que ocorre a dispersão das sementes. Inúmeros são os exemplos de frutos consumidos pela avifauna como a Tapirira guianensis, Myrcia multiflora, Clusia criuva, Ilex spp, Erythroxylum amplifolium, Schinus terebinthifolius e Psidium cattleianum, destaca-se os frutos de Calophyllum brasiliense que servem de alimento para o papagaio chauá.

Outro aspecto refere-se as interações inseto/planta, no qual o primeiro se beneficia alimentando-se da seiva, das folhas, do nectar e pólem, e o segunda se beneficia com a polinização, na decomposição da serapilheira e na absorção dos nutrientes. Por sua vez estes insetos servem de alimento para diversos animais.

A vegetação além de fonte de alimento como produtor primário, sustentando toda a cadeia alimentar é o abrigo para toda fauna, tendo a EEIM papel relevante por exemplo como refugio e abrigo do papagaio chauá.

A interação flora/fauna apresenta-se bastante intricada onde interagem além dos aspectos biológicos, aspectos climáticos e do meio abiótico. Estas na sua maior parte são muito pouco conhecidas, mas sabe-se que modificações de origem antrópica alteram completamente estas relações, comprometendo a sobrevivência de uma série de espécies. Neste sentido, a existência das unidades de conservação são importantíssimas para a manutenção destas interações.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS © 2000 BRITEZ-SILVA

ESTUDO REALIZADO POR:
Ricardo Miranda de Britez

Biólogo, MSc., Doutor em Engenharia Florestal / SCA / UFPR,


Sandro Menezes Silva

Biólogo, Dr., Departamento de Botânica / SCB / UFPR,

 

FONTE: http://www.ilhadomelonline.com.br/

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